ODE A LEÕES
Artur Vieira dos Santos - nº
64-028
Era pura a talhadura do protocenário
Tudo era sonho e esperança
Ideal e fantasia
Até que a tradição convocou à realidade
Hora de crescer
A dor da partida, os monstros do caminho
A euforia acorrentada
A disciplina
Alvorada santa a que nos despertou
Do pueril torpor
A primeira ruga gravou na face
O atavismo da iniciação inevitável,
Irreversível
A longa jornada à luz dos mestres
Foi de passos, um a um
Cada qual feito de labor e suor
Risos, muitos risos
Muita,muita dor nas separações
Irremediavelmente prematuras
As frustrações sofridas
Os obstáculos vencidos
A meta alcançada
A glória
Mas eis que é hora, de novo, de partir
Rumo a outros monstros
A hora é pra leão
Cavalgar até se preciso
O cenário ganha agora tons mais dramáticos
Muita nuvem
Fortes ventos de través
Tempestades magnéticas “E la nave va”
Levando vidas
Suportada pela humana teimosia É feroz o embate da sua
pele metálica
Com o vento cáustico
São muitas as provações
Físicas, neurológicas,metafísicas
E eis que a nave penetra no oceano do poder
De singradura mais segura
De clareza e consciência
Ungida do conhecimento do bem e do mal
Do falso e do verdadeiro.
Sua contrapartida, o fardo do dever
Da opção entre viver ou morrer
Dar à vida ou tirar.
A gravidade da escolha é hábil gravadora
De uma rede de rugas
Que mostra aos nossos espectadores
O que fizemos de nós
Auto-esculturas
Segundo nossas eleitas escrituras
A bagagem que trouxemos
O primeiro farnel no embornal
A amizade mais verde dos sinceros anos
Dos sangrentos crepúsculos
Solenes, de sinos
Andorinhas e ave-marias
De paixões batendo
A ponto de explodir o peito
Do jeito nosso de falar, pensar
Contar, brincar
Jogar, sentir...
Agora nos resta
Julgar, escolher
Decidir, ganhar, perder
E sobretudo competir
Lutar, lutar,lutar...
Já nossos filhos nos vêm acudir
Tomar o bastão
Para que juntos vençamos
A interminável corrida
Melhor: maratona
Pela escarpada encosta
De uma Grécia onírica
Muitas vezes caindo, acudindo
Sendo amparados
Por velhos companheiros
De ninho e de cepa
Fundidos a fogo no cadinho dos lentes
Transformados em atores
Numa peça sem começo nem final
Feita como a Bíblia
De textos de variada assinatura
Cada qual íntegro, por sua vez
Com princípio, meio e fim
Bem ao gosto humano.
Vibrante é o ocaso que já se vislumbra
Colorindo nossas cãs e calvas
Nossas vestes alvas
Lavadas a lágrimas de alegria e de dor
Por um lado revelando nossa frente com
Minúcia
Por outro sombreando, generoso
Nossas largas costas calejadas
Vencidos os persas em Salamina
O que importam os heróis?
Loas e glórias aos deuses!
Nossas preces e súplicas
E mercê aos desígnios da humana raça
De seu milenar caminhar
Por caminhos e descaminhos
Mas também restam, por nossa ventura
Os nossos corações
Transbordando de ternura
Prodigalizando o cenário
Com incenso e lampejos multicores
Integrando atores e espectadores
Dando-lhes sentido
Costurando a síntese possível
Viável, verossímil
Confeccionando um satisfatório final
Lembrando o velho Neruda “Creio que nos juntaremos nas alturas
Creio que sob a terra nada nos espera
Mas sobre a terra vamos juntos
Nossa unidade está sobre a terra.”
E aos amigos que já se foram, até um dia. |