SOTEL,
MAIS QUE UM SONHO, UMA REALIDADE!
HISTÓRICO
7 de junho de 1979, último dia de
aula do Curso, para promoção a Major, na antiga
Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais – EAOAR
- em Cumbica, São Paulo.
Terminado o almoço, o Júpiter
Sérgio Marândola (67-194) encontrou-se com o
Carlos Alberto Paiva (64-94), ocasião em que manifestou
sua preocupação, porque, naquele dia, estarIam
reunidos, pela última vez, na vida militar, o maior
número de integrantes da Turma. Oportunidade semelhante
só ocorreria, dez anos depois, na Escola de Comando
e Estado- Maior; tempo demasiado longo...Sugeriu, então,
ser aquele o momento, para que se constituísse uma
Sociedade, com o fito de agregação e congraçamentos
perenes .
Para conduzir tal projeto, consultou alguns
companheiros que, por tradição, sempre estiveram
à frente das atividades de congraçamento da
Turma. Todos apresentaram razões pessoais, que os impediam
de encabeçar tal empreitada.
Júpiter Sérgio Marândola
não esmoreceu. Retornou ao Carlos Alberto Paiva e perguntou
o que ele achava daquele impasse. Respondendo, disse-lhe para
não se preocupar, pois procuraria encontrar um caminho
para concretizar a idéia.
Despediram-se e seguiram caminhos opostos,
quando, em dado momento, após caminharem alguns passos,
Marândola virou-se na direção de Carlos
Alberto e disse-lhe: “Sugiro que o nome da Sociedade
seja SOTEL – Sociedade da Turma É P’rá
Leão!.. “. A resposta do companheiro Carlos Alberto
foi imediata: “ Gostei da idéia!”. E, assim,
seguiram os seus caminhos.
No auditório Major Ortegal, onde
os alunos do Curso passavam a maior parte do tempo, Carlos
Alberto voltou a procurar aqueles mesmos companheiros, que
Marândola houvera consultado, e indagou- lhes sobre
as suas possibilidades para encabeçarem aquele projeto.
Carlos Alberto enfatizou, a esses companheiros,
o reconhecimento que lhes era atribuído por suas participações
à frente da Turma. Os impedimentos permaneceram. Decididamente,
não os havia sensibilizado.
Não se dando por satisfeito, resolveu,
no intervalo para o último tempo de uma palestra que
estava sendo realizada, pedir permissão ao Chefe do
Curso, para dirigir-se à audiência. Foi autorizado.
Subiu à tribuna e procurou fazer
ver a todos que a Turma sempre houvera primado pela união
e que estavam vivendo, naquele momento, a última oportunidade
de convívio, com um significativo número de
seus integrantes. Sabia-se que havia uma vontade para que
fosse mantido um grupo coeso, o que só se viabilizaria
através de uma Sociedade. Era necessário, portanto,
pensarem, urgentemente, como isso se daria, haja vista, pelo
término do Curso, que o tempo extinguia-se rapidamente.
Ou era ali, naquele dia, ou nunca...Complementou a sua fala,
informando a quem quisesse participar de uma discussão
para a constituição daquela Sociedade, que estaria
aguardando, logo após o encerramento da palestra, no
auditório contíguo ao Ortegal.
Exatamente às 14:30h do dia 7 de junho de 1979,
dezoito oficiais da Força Aérea responderam
ao chamado e reuniram-se. Estavam imbuídos da urgência
e da importância daquele encontro, para a contínua
união da Turma. Esses oficiais, por ordem alfabética
do nome de guerra, eram: Ambrosano, Amorim, Braga, Carlos
Alberto, José Carlos, Chaves, Cunha, Esteves, Gondin,
Huber, Jair, Migon, Miguel, Mello, Pinto, Paulo Fernandes,
Reginaldo e Silva Neto. O assunto importante a ser tratado
era: O FUTURO DA TURMA É P’RÁ LEÃO.
Foram trazidos ao pensamento os tempos idos...
Retrocedendo mais ainda no tempo, tudo havia
começado na noite de 22 de março de 1964, quando
um grupo de jovens, das mais diversas origens, oriundos de
quase todos os rincões do país, embarcou numa
composição da Central do Brasil, com destino
à cidade de Barbacena – MG, onde desembarcariam,
na madrugada de 23 de março de 1964.
Esses jovens escolheram a Força
Aérea motivados por filmes assistidos nos cinemas locais
(muitos, ainda, não tinham televisão), onde
pilotos americanos, da segunda guerra ou Coréia, combatiam
os inimigos em seus F86 e B25 e das empolgantes exibições
aéreas da “Esquadrilha da Fumaça”.
A grande maioria desses jovens procedia das classes pobres
ou média e possuiam muita “gana” para lutar
pelos seus ideais.
Desta vez, quis o destino que fossem todos
juntos, não em partes, em diferentes meios de transporte,
como anteriormente acontecia com outras Turmas. Na nossa,
não! E Vera Cruz foi o nome da composição
que conduziu a todos nós em seu bojo. Coincidência
ou não, Vera Cruz foi o primeiro nome dado ao nosso
País.
Ali começava o primeiro amalgamento de uma
Turma que fez história na Força Aérea
e ainda faz no Brasil, através dos companheiros que
ocuparam e ocupam os diversos segmentos da nossa sociedade.
Já incorporados na EPCAR, esse grupo
suportou uma pesada carga de “trotes” aplicada
pelos “veteranos”, apesar de existir uma campanha
para extingui- los. A provação foi aceita, pois
entendíamos fazer parte do processo seletivo.
Um certo dia, daquele ano, todos os rádios
de pilha dos alunos foram recolhidos, bem como tivemos interrompida
toda e qualquer comunicação com o “mundo
exterior”. Ninguém entendera nada. Não
sabíamos o que estava acontecendo. Passamos a contar
somente uns com os outros... e a amizade e o companheirismo
começou a surgir.
Era 31 de março de 1964, a revolução
eclodira. Passamos, a partir daquela data, oficialmente, a
fazer parte de um grupo “marcado a ferro”, o que
nos deu a distinção, até hoje, das outras
Turmas antecessoras e sucessoras.
Com a nossa Turma, as inovações e experiências
começaram a surgir: o velho estudo dirigido foi extinto;
em seu lugar foi inserido o PSC e sua fórmula punitiva
(passando a existir o grau negativo). Nossos licenciamentos,
do calendário anual, foram cassados, etc.
No ano seguinte, 1965, de “bichos”
do 1º ano, passando para 2º ano, fomos conduzidos,
por contingência, ao patamar de “veteranos máximos”.
Os “donos” da Escola, já que o 3º
ano – até então cursado em Barbacena –
havia sido remanejado para o Campo dos Afonsos, no Rio de
Janeiro. Outra experiência!..
Pelo ocorrido, os encargos e as responsabilidades,
para nós do 2º ano, passaram a ser maiores: serviço
de Aluno- de- Dia ao Corpo de Alunos, Sociedade Acadêmica,
doutrinamento do bicharal, representação da
Escola nos esportes, na sociedade Barbacenense , nos bailes
e nas brigas.... Entretanto, mais provações
estariam por vir...
Como se não bastasse cassar os licenciamentos
periódicos mais longos, algumas idas à cidade
foram suprimidas, por uma autoridade da época, sob
pretexto de que a cidade não tinha capacidade para
receber tantos jovens de um mesmo sexo de uma só vez.
As responsabilidades foram aumentando e os direitos
sendo reduzidos. Os tempos eram outros e tínhamos de
ser os primeiros a dar exemplo. Mudanças podem ser
absorvidas, em nome de um ideal. Entretanto, as regras não
devem ser alteradas intempestivamente, principalmente em se
tratando de tradições, sob pena de quebra da
hierarquia e da disciplina. Uma é conseqüência
da outra!
Em um certo almoço, protagonizado
por toda a Turma, a primeira regra foi quebrada (a hierarquia),
levando de roldão a segunda (a disciplina). Apesar
de nada combinado, a Turma agiu como um só corpo, mostrando
forte personalidade e união. Afinal, não estávamos
naquela Escola para sermos massa de manobra e sim oficiais
de uma Força que, sobretudo, se propunha a forjar homens
para liderar e decidir.
A partir daquela atitude solidária
de toda uma Turma, tentaram prejudicar as individualidades,
isolando alguns mais visados. Entretanto, o grupo teve maturidade
suficiente para reverter a situação.
Ficou demonstrado, naquele momento, que existia
uma Turma diferenciada das demais, que quanto mais pressionada,
mais ficava unida e forte. As tentativas de criar mártires
para quebrar a vontade não deram certo, os tempos confirmariam!
A vontade e a união já estavam
mais do que comprovadas no passado. O que faltava era criar
um instrumento, para institucionalizar esta força.
Naquela tarde em Cumbica havia sido plantada
a semente, fruto de uma singela proposta apresentada nos corredores
da EAOAR. E, no dia 29 de junho de 1979, este instrumento
foi concebido: foi criada e oficializada a SOTEL.
Seu primeiro sucesso foi conseguir a promoção,
com ressarcimento, de seus Membros preteridos. O próprio
Ministro da Aeronáutica, Ten. Brig. Délio Jardim
de Matos, foi levar a notícia, pessoalmente, na EAOAR.
Fato inédito na FAB!
Exaustivas reuniões foram realizadas
buscando-se a consolidação de um Estatuto, para
balizar os caminhos da sociedade. Nenhum clichê foi
aceito, visto os ideais serem ímpares e a vontade,
soberana.
Todos tiveram oportunidade de participar
e serem ouvidos. Aqueles desejosos de contribuir com suas
idéias ou trabalho tiveram seus espaços. Sabia-se
que alguns não podiam participar diretamente por motivos
diversos, mas cabe ressaltar que aqueles que contribuíram
o fizeram com muita dedicação, não importando
os trabalhos de dias e noites.
A SOTEL passara a existir, alheia às
críticas e obstáculos. As Diretorias se sucederam,
sem que o trabalho sofresse solução de continuidade.
Dependentes de companheiros de Turma foram
apoiados, colegas auxiliados...
Nosso companheiro Giordano, morto em serviço,
teve, graças à interferência da SOTEL,
seu nome imortalizado em um Ginásio na Ilha de Fernando
de Noronha.
O mais importante é que a Instituição
SOTEL permanecia garantindo a todos um Fórum , onde
pudessem expor suas idéias e seus problemas.
O Estatuto foi atualizado, para a adaptá-lo
à época; idéias discutidas e, durante
dez anos, foram realizados 104 Reuniões oficiais, várias
Assembléias, centenas de reuniões informais
e congraçamentos familiares.
Em 1992, a Diretoria mudou sua base para
Brasília, como previa o Estatuto. Por motivos alheios
à vontade dos seus diretores, a Instituição
hibernou. Talvez pela própria característica
da cidade.
Em dado momento atual, um Membro abnegado
da Turma (64-66 Eduardo) resolveu ressuscitar os valores da
Turma É P’rá Leão. Na sua busca
incansável pela reunião total da Turma, deparou-se
com a oportunidade de acordar o gigante adormecido, que tanta
energia absorveu para ser criado e tantos problemas solucionou
com sua força.
Aos treze dias de novembro 2003, o gigante acordou
como de um sonho. A Sociedade possui novamente Diretoria
constituída e ideais renovados. E, a partir de agora,
a Turma também será exaltada, nas paradas militares,
por todas as presentes e futuras gerações da
Força Aérea Brasileira, através do seu
Hino, composto por um de seus Membros – Tenente-Coronel
Intendente R1 Nilson Arneiro Deslandes (aluno 64-187).
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